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06.04.2002.

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NÚMERO DE FOTOGRAFIAS E IMAGENS: 535.

O CXSAJBA AGRADECE AOS COLABORADORES, PELAS 536 FOTOGRAFIAS E IMAGENS, DE SUAS REFERÊNCIAS.
PROFESSOR FÁBIO MOTTA (ÁRBITRO DE XADREZ).

OBJETIVO DESTE BLOG:

NESTE BLOG TEM O PROPÓSITO DE RESGATAR VALORES HUMANOS, ATRAVÉS DE HOMENAGENS E LEVAR CIDADANIA, POIS CIDADANIA É COMPOSTA DO TRIPÉ: A) CONHECER AS LEIS; B) CUMPRIR OS DEVERES; C) REVINDICAR OS DIREITOS. PROF. FÁBIO MOTTA (ÁRBITRO DE XADREZ).

quinta-feira, 8 de julho de 2010

295ª HOMENAGEM: ARTISTA MIRIAM TATSUMI.

HOMENAGEM À ARTISTA MIRIAM TATSUMI, POR DIVULGAR A TÉCNICA OSHIBANA, NO BRASIL, PROPORCIONANDO BEM-ESTAR, QUALIDADE DE VIDA, DESCOBRINDO NOVOS TALENTOS.
PARABÉNS!
PROF. FÁBIO MOTTA (ÁRBITRO DE XADREZ).






Mirian Tatsumi é mestra em Arte Oshibana, formada no Japão durante os sete anos que viveu no país asiático. O talento da artista é resultado de mais de 14 anos de estudo e dedicação na arte, sendo que seus trabalhos são referências no Brasil e reconhecidos internacionalmente.
A artista encerrou o ano de 2009 com chave de ouro, após ver seus trabalhos em destaque em duas grandes Exposições. A primeira consagração do ano foi em outubro, no Brasil, durante a 3ª Grande Exposição de Art Bunkyo 2009...

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É na sala de aula que Mirian Tatsumi repassa todo o seu aprendizado e conhecimento técnico dessa encantadora Arte, a Oshibana. Seus cursos tem uma procura muito grande, tanto por integrantes da colônia japonesa, como brasileiros de vários estados e descendentes de imigrantes. A programação inclui várias técnicas e ensina a fazer desde marca-livros e porta jóias até maravilhosos quadros
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Mega Artesanal
O evento apresenta mostras e exposições temáticas, lançamentos, apresentações de artistas e artesãos, palestras, cursos de artesanato e artesões. Neste ano, contará com a participação de Mirian Tatsumi, mostrando a técnica de Oshibana.

Período: 29/Junho a 04/julho
Local: Centro de Exposições Imigrantes



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No Brasil, a artista Mirian Tatsumi é uma das grandes responsáveis por trazer e divulgar a Arte em diversos estados brasileiros, principalmente em São Paulo, em que, desde 2007 realiza uma exposição anual com mais de quinhentas obras produzidas por ela e seus alunos na Escola Oshibana Art.
Localizado no Bairro da Liberdade, no centro de São Paulo, a escola reúne belíssimos trabalhos e talentosos artistas formados pela professora durante seus cursos.
Mirian é mestra em Arte Oshibana, formada no Japão durante os sete anos que viveu no país asiático. O talento da artista é resultado de mais de 14 anos de estudo e dedicação na arte, sendo que seus trabalhos são referências no Brasil e reconhecidos internacionalmente.
A artista encerrou o ano de 2009 com chave de ouro, após ver seus trabalhos em destaque em duas grandes Exposições. A primeira consagração do ano foi em outubro, no Brasil, durante a 3ª Grande Exposição de Art Bunkyo 2009, realizado em São Paulo. Em dezembro do mesmo ano, participou do The art of Oshibana – Exihibition of Creation VI (6º Concurso de Exibição e Criatividade da Arte Oshibana), realizado em Yokohama no Japão. Na ocasião a artista foi premiada por apresentar uma das obras mais criativas, concorrendo com mais de mil e seiscentas representadas por dez países.
Por acreditar no potencial da Arte Oshibana, tanto no Brasil como em outros países, Mirian Tatsumi se lança ao desafio, e novos projetos já estão sendo desenvolvidos pela artista.
Tanto Mirian, quanto o curador internacional dos Cursos de Arte em Oshibana, Nobuo Sugino, consideram que o Brasil tem um grande potencial para a expansão dessa arte devido a sua rica e extensa flora, e apontam que o maior diferencial das flores encontradas no Brasil é que elas contêm menos água, o que facilita o processo de secagem. Isso vai permitir a preservação das características de coloração e texturas naturais por muito mais tempo e com mais qualidade.

PESQUISADO E POSTADO, PELO PROF. FÁBIO MOTTA (ÁRBITRO DE XADREZ).
REFERÊNCIAS:
http://www.oshibana.com.br/home.aspx
http://www.oshibana.com.br/artista.aspx

quarta-feira, 7 de julho de 2010

294ª HOMENAGEM: LIBRA E SEU INVENTOR.



Vida.
Charles-Michel de l'Épée nasceu numa família abastada, em Versailles, que era na altura o mais poderoso reino da Europa. Estudou para ser padre católico, mas foi-lhe negada a ordenação, em resultado da sua recusa em negar o Jansenismo, um popular movimento de reforma religiosa da época. Então, estudou direito, mas pouco depois foi designado abade.

Épée voltou a sua atenção para obras de caridade para os pobres, e uma altura, numa zona pobre de Paris, teve oportunidade de encontrar duas jovens irmãs, surdas, que se comunicavam através da língua gestual (ou língua de sinais, como é chamada no Brasil). Épée decidiu, então, dedicar-se à salvação dos surdos e, em meados na década de 1750, fundou um abrigo, que ele próprio sustentava a nível particular e privado. Em consequência das teorias filosóficas que emergiam na época, Épée veio a acreditar que os surdos são capazes de possuir linguagem, concluindo assim que eles podem receber os sacramentos e evitar ir para o Inferno. Começou a desenvolver um sistema de instrução da língua francesa e religião. Nos primeiros anos da década de 1760, o seu abrigo tornou-se a primeira escola de surdos, a nível mundial, aberta ao público.
Embora o seu interesse principal fosse a educação religiosa dos surdos, a sua advocacia e o desenvolvimento do francês gestual permitiram aos surdos, pela primeira vez, defender-se em tribunal, legalmente.
O Abade de l'Épée morreu no início da Revolução Francesa (1789) e seu túmulo está na Igreja de Sain Roch, Paris. Dois anos depois da sua morte, a Assembleia Nacional reconheceu-o como "Benfeitor da Humanidade" e foi declarado que os surdos têm direitos, de acordo com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Em 1799, o Instituto Nacional de Surdo-Mudos em Paris, fundado por Épée, começou a ser financiado pelo governo. Mais tarde foi renomeado para Instituto St. Jacques. Os seus métodos de educação espalharam-se pelo mundo e o abade de l'Épée hoje considerado como um dos fundadores da educação para os surdos.
Instrução através de gestos.
O seu método de educação centrava-se no uso de gestos (sinais, no Brasil), baseando-se no princípio de que "ao surdo-mudo deve ser ensinado através da visão aquilo que às outras pessoas é ensinado através da audição". Épée reconheceu que já existia uma comunidade surda em Paris, mas via a sua língua (Antiga Língua Gestual Francesa) como primitiva, sem gramática. Embora tenha aconselhado professores (ouvintes) a aprender a língua gestual para o uso na instrução dos estudantes surdos ele próprio não usava a língua gestual nas suas aulas. Ao contrário, ele desenvolveu um método usando algum léxico da língua gestual, combinado com gestos inventados, que representavam as terminações verbais, artigos e verbos auxiliares da língua francesa.

Épée, em menos grau, também usou o oralismo e a leitura labial com os seus alunos.

Legado educacional.
O que diferencia l'Épée dos educadores de surdos antes dele, foi ter permitido que os seus métodos e o acesso às suas aulas fossem abertos ao público e a outros educadores. Em resultado desta abertura, tanto quanto ao seu sucesso, os seus métodos influenciaram toda a educação de surdos actual. Épée também estabeleceu programas de ensino/treinamento para estrangeiros que pretendiam levar os métodos de ensino para o seu próprio país, tendo, deste modo, contribuído para a abertura de imensas escolas ao redor do mundo. Laurent Clerc, surdo, aluno na escola de l'Épée, foi co-fundador da primeira escola de surdos da América do Norte, e levou com ele a língua gestual que formou as bases ao aparecimento da ASL e, inclusive, do alfabeto manual da ASL.

Principais contributos.
Criação do Instituto nacional de Surdos-mudos, em Paris - a primeira escola de surdos do mundo. [1]
Atribuição do estatuto de ser humano, ao surdo.
Passagem da educação individual para a colectiva.
Tentar ensinar o surdo a falar é perda de tempo - deve-se usar esse tempo ensinando ao surdo a língua gestual.[2]
Demonstrações sobre a língua gestual aos nobres, filósofos e educadores da época, mostrando o valor e a riqueza da mesma.
[editar] Mitos sobre l'Épée
Épée é muitas vezes descrito como o inventor da língua gestual, mas na verdade, foram os surdos que lhe ensinaram a língua.[2]
É também citado como o inventor do alfabeto manual, unimanual.
[editar] Obras publicadas
(1776) Institution des sourds-muets par la voie des signes méthodiques;
(1794) La véritable manière d'instruire les sourds et muets, confirmée par une longue expérience;
Iniciou Dictionnaire général des signes, que foi completado por seu aprendiz, o Abade Sicard.

PESQUISADO E POSTADO, PELO PROF. FÁBIO MOTTA (ÁRBITRO DE XADREZ).
REFERÊNCIAS:
http://libras.files.wordpress.com/2008/07/alfabeto-em-libras.jpg
http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles-Michel_de_l'%C3%89p%C3%A9e
Lane, Harlan. When the Mind Hears: A History of the Deaf. New York: Random House, 1984.
Catholic Encyclopedia article
A História dos Surdos no Mundo, Surduniverso.
↑ História dos Surdos no Mundo, página 25
↑ a b História dos Surdos no Mundo, página 24

segunda-feira, 5 de julho de 2010

293ª HOMENAGEM: LUIZ CARLOS SAROLDI.

LUIZ CARLOS SAROLDI.

Amigo Ouvinte - Saroldi, como foi o seu começo radiofônico?

Luiz Carlos Saroldi - Acho que havia um rádio próximo do meu berço. Era naquele tempo do rádio Capelinha, nos anos 30. Lá em casa se ouvia muito rádio - com a família inteira em volta, claro. Aquelas vozes, aquelas músicas, o falar carioca, chegavam por ali. Mas eu nunca pensei em trabalhar em rádio. Mas certa vez, ainda no curso cientifico do Instituto La-Fayete, foram convidar jovens atores para participar de um programa na Rádio Nacional, escrito pelo produtor Mario Faccini, cunhado do Almirante. Isso em 1949/50, por aí. Fui selecionado para ir nesse grupo e vi de perto alguns dos grandes nomes da Nacional, além daquele estúdio maravilhoso de radioteatro. O programa foi dirigido pelo Restier Junior, um velho homem de teatro conquistado pelo rádio. O programa era ao vivo, não se podia errar. Então, foi uma amostra do que era o profissionalismo da Rádio Nacional, com sonoplastia e anúncios, tudo entrando na hora certa. Mas apesar de deslumbrado com aquele clima, meu interesse maior continuou no teatro. Em 52 tranquei a faculdade para viajar como profissional com a companhia Carlos Couto-Aurora Aboim, trabalhando como ator e assistente de direção. Apesar da qualidade do repertório e das boas críticas, foram três ou quatro meses de "mambembar" pelo nordeste - o dinheiro não dava para as despesas. Na volta eu percebi que não podia viver de teatro e estudar ao mesmo tempo. Então, retomei a faculdade e comecei a buscar um espaço no rádio.
Fiz um teste para locutor na Rádio Jornal do Brasil. Me deram um período de experiência, abrindo a rádio às seis da manhã. Mas tudo ainda era muito rígido na JB. As pessoas falavam com a voz impostada, e foi difícil me enquadrar. Na época a Rádio era dirigida pelo Oswaldo Éboli, o Vadeco, do Bando da Lua, tendo como assistente da direção o dr. Nascimento Brito, que começava na empresa. Fiquei umas duas semanas, e como eu não mudava e nem a Rádio mudava, desisti. Pouco depois, saiu um anúncio no jornal dizendo que a Rádio MEC ia promover um curso de rádio para professores, advogados e estudantes. Eu me inscrevi. As aulas eram no estúdio sinfônico, transformado em auditório. Havia um número grande de participantes. E foi muito interessante, porque, além dos locutores e produtores da própria Rádio, como Edino Krieger, Paulo Santos, Geny Marcondes e outros, conheci profissionais do nível de César Ladeira e do professor José Oiticica, catedrático de português do Pedro II. O curso foi muito bem organizado por dona Neusa Feital, incluindo prática ao microfone para os interessados. Fernando Tude de Souza era o diretor da rádio na época, se não estou enganado. Mas dali não saiu mais que isso.
Passa-se algum tempo e um dia reaparece a JB em minha vida. Agora por intermédio do Ivan Meira, ex-locutor e produtor da Rádio MEC que havia se passado para lá. A então PRF 4 continuava tentando se modernizar, mas não sabia bem o que fazer. As grandes emissoras eram 'ecléticas' - faziam de tudo A Nacional e a Tupi, por exemplo, competiam no futebol, no jornalismo, nas novelas, nos programas de auditório e nos grandes e pequenos musicais. Poucas emissoras eram especializadas - segmentadas, como se diz hoje. A Rádio JB não tinha futebol, mas transmitia as corridas do Jóquei e valorizava a música erudita bem mais do que a popular. De repente surge lá a idéia, não sei de quem, de fazer um programa radiofonizado, aos sábados à noite, com adaptações de contos; aí precisaram formar um pequeno elenco, de jovens atores. O Allan Lima era um deles. Lembro também de uma moça, Carmem Barbosa, a Vilma Torres, que era minha colega da faculdade e mais alguns. Claro que não tínhamos contrato, mas recebíamos cachê para participar. Foi bom, mas a iniciativa não durou muito tempo.

AO - Isso em que ano?

LCS - Por volta de 54/55. Bem, eu continuei fazendo as minhas coisas,. enquanto o rádio evoluía, tentando conviver com a chegada da TV. A Rádio Tamoio subia de audiência, com seu esquema "música, exclusivamente música", amparada em uma equipe de Bacharéis do Disco. Tentei um teste por lá mas não deu pé. Até que em 59 a JB se decidiu a buscar de fato o seu caminho no rádio moderno. O responsável pela Rádio era agora o dr. Nascimento Brito, tendo como diretor artístico o jornalista e produtor Kosinski de Cavalcanti, que tinha sido da Rádio Eldorado e da Tamoio, e teve a preocupação de contratar uma equipe renovada. Levou, entre outros, Fernando Veiga e Dymas Joseph, e este indicou meu nome ao Kosinski. O novo diretor precisava de alguém que produzisse a simulação de um concerto ao vivo, com palmas, evidentemente gravadas. Devia ter um tema, um prólogo, uma bossa qualquer. O Dymas me chamou e eu apresentei um esboço. O Kosinski gostou tanto que me propôs um acúmulo de funções: ser assistente dele e programador - coisa que eu não tinha feito até então - trabalhando com música popular. Eu aceitei porque o salário cresceu, e aí foi o meu batismo profissional, realmente. Mas o Kosinski não ficou muito tempo.

AO - Em que ano estamos?

LCS - Estamos no ano de 1959, exatamente. O jornal havia modificado sua feição gráfica, modernizada pelo Odilo Costa Filho, em 1956, com o Amílcar de Castro, o Jânio de Freitas e o Reinaldo Jardim - que fazia o suplemento literário e tinha sido redator da Rádio JB. Com a saída do Kosinski, quem entrou pra direção foi o Reinaldo Jardim - que além de poeta, gostava muito de rádio. Ele deu toda liberdade à equipe e trouxe novas idéias. Aí então se definiu a linha da JB como "música e informação". Alternava notícias, prestação de serviços e utilidade pública com música selecionada. E era selecionada mesmo: nem Roberto Carlos cantava lá - pra você ter uma idéia dos preconceitos da época. Além de programar, eu também escrevia. Um desses programas era o Trailer Musical, só musica do cinema. Nele comecei a brincar com o texto, quebrar a monótonia do "vamos ouvir... acabaram de ouvir". Contava historinha, fazia humor com os personagens do filme, e isso agradava. Ainda na época do Kosinski foi lançado o Encontro na Discoteca, um programa apresentado pelo Paulo Santos. Ele entrava pela discoteca com o microfone na mão e conversava com os programadores, cada um mostrava alguma coisa interessante em matéria de disco, executado na hora. Isso deu um novo dinamismo pra Rádio JB, que tomou sua feição definitiva com as idéias do Reinaldo Jardim. Ele criou o Serviço de Utilidade Pública e também inventou um chamariz para medir a audiência, O Garoto Assobiador. Era um rapaz que assoviava um tema duas ou três vezes por dia no meio da programação, e o ouvinte tinha que escrever acertando as horas em que tinha ouvido o assobiador. Os acertadores ganhavam discos. Outra invenção do Jardim foi o miniprograma Música Também é Notícia, com 10 edições diárias, do qual fui o primeiro produtor. Apesar da canseira foi uma fase muito estimulante, que me deu um "banho de rádio", porque até então eu só contava com aquele curso da Rádio MEC. Na JB aprendi a escrever programas de vários tipos, redigir chamadas e selecionar discos, coisa que eu nunca tinha feito. Esse período durou três anos, até que em 62 saí de lá para fazer publicidade.

AO - A JB tinha um gosto musical bem marcado. E entre outras coisas ela teve uma participação importante na bossa nova. Fale um pouco desse período.

LCS - Esse período da JB coincide com o nascimento da bossa nova, que ela ajudou a partejar, na verdade. Porque a preocupação com o repertório musical da JB não admitia gravações de som antigo, deficiente, ou acompanhamento pobre. A vestimenta musical de bom gosto era uma preocupação da direção e dos homens da discoteca - o Dymas Joseph, o Fernando Veiga, que tinham grande experiência nisso. Então a bossa nova surgiu trazendo um som diferente, a batida do João Gilberto, embora com pequeno acompanhamento, violão em destaque. Me lembro de uma mesa redonda dos programadores com o Reinaldo Jardim e o Edino Krieger em que discutimos aquela novidade e concluímos que valia a pena abrir espaço na JB para a bossa nova, e aí começamos a garimpar cada disco que chegava. Ainda no Encontro na Discoteca entrevistamos o produtor da etiqueta Festa Irineu Garcia, que foi nos levar o LP Canção do Amor Demais, com Elizete Cardoso, música de Tom e Vinicius. Me lembro até hoje dessa conversa: Irineu Garcia se tornou uma figura por quem tenho uma grande admiração.

AO - Ele era produtor de discos?

LCS - Era funcionário público, tinha um cargo no MEC, mas só pensava em música e poesia. Ele começou registrando poetas dizendo seus versos. Depois o selo Festa abriu o leque na literatura falada, chegando a gravar uma radiofonização de O Pequeno Príncipe, com Paulo Autran como narrador. Em seguida o Irineu enveredou pela música, lançando um disco de modinhas cantadas por Lenita Bruno até chegar ao Canção do Amor Demais. Penso que essa posição da JB com relação à bossa nova indica como a emissora foi importante. Apesar de ser comercial, ela tinha a preocupação de oferecer o melhor a seus ouvintes. Tinha também um tom descontraído, marcado pelas vinhetas especiais gravadas pelo conjunto Os Cariocas, e uma equipe de locutores do melhor nível - vozes como as de Jorge da Silva, Eliakim Araújo, Sergio Chapelin, Maravilha Rodrigues, Orlando de Souza, William Mendonça, tantos outros. Nela existia uma certa aura, tanto que o número de órfãos da JB é hoje muito grande, não só aqui no Rio, mas por todo o Brasil.

AO - Qual era o alcance da JB? Qual era o Ibope?

LCS - Nessa época, na virada dos anos 60, a JB com sua nova programação alcançou o quarto e o quinto lugares no Ibope, onde praticamente estacionou. Tínhamos a Nacional, que ainda resistia no 1º lugar, mas assediada pela Tamoio, com o esquema 'música exclusivamente música'. Em compensação, a JB tinha o grosso da audiência nas classes A e B, de maior poder aquisitivo, e uma carteira de patrocinadores de primeiro nível, incluindo companhias de aviação e uns dez bancos. Então ela chegou a ser das primeiras em faturamento. Música Também é Noticia, que o Reinaldo Jardim inventou e eu produzi, teve outros patrocinadores e outros produtores que me sucederam, mas durou muito tempo. Assim como o sucesso de Pergunte ao João, produzido pelo João Evangelista, e apresentado pelo Majestade (apelido do locutor Jorge da Silva) e Maravilha Rodrigues. O alcance era bastante razoável - tinha transmissor de 50 kws, novo, bem posicionado, e que chegava a cobrir todo o Rio de Janeiro e alcançava São Paulo à noite, principalmente. Aliás, ela chegava bem na cobertura noturna da região Sul, por vezes penetrando no Uruguai e Argentina. Anos mais tarde, através das cartas dos ouvintes do Noturno, eu constatei que o alcance era muito maior do que se pensava, que ela chegava também em Jequié e outras cidades do nordeste. O crítico Zuza Homem de Mello me revelou certa vez que sintonizava exclusivamente a Rádio JB quando descia para o litoral paulista. Ele se encantava com o estilo, com a programação musical e as nossas produções.


AO - Saroldi então você diz que essa experiência durou 3 anos, e depois você se retirou para a publicidade, questão de grana?

LCS - Foi: grana e um certo desentendimento. Um dia eu botei no ar em Música Também é Notícia Elza Soares cantando Maria, Maria, Mariá, do Billy Branco. O chefe da discoteca achou que fugia do nível da programação. Discordei, mas como não conseguimos chegar a um acordo, entreguei a produção do programa, o que representava um baque no meu salário. Aí, vim a saber que havia uma vaga de redator na Standard Propaganda. Fui e passei no teste, e o salário compensava a saída da JB. A experiência com publicidade me deu um outro aprendizado: o lado das agências, o contato com a parte comercial, a Standard tinha grandes anunciantes naquela época. Eu escrevia anúncio para rádio, televisão, imprensa. Bem, aí chegam os anos turbulentos de 1960, com o parlamentarismo, agitações, as reformas de Jango, e de repente eu era um dos redatores da campanha pelo plebiscito que trouxe de volta o presidencialismo. Mas depois de abril de 64 pedi demissão da Standard. Passei a ser free lance de publicidade em vários lugares e a dirigir teatro na então Universidade do Estado da Guanabara. Mas o clima político também não me permitiu seguir adiante. Sobrevivi algum tempo numa espécie de marginalidade, escrevendo teatro e redigindo publicidade. Até que, por volta de 72, o Célio Alzer me chamou para dividir uma quantidade de programas que ele produzia para o Projeto Minerva, e comecei com uma série para Mossoró - uma experiência de ação comunitária pelo rádio.

AO - Que lembranças você tem do clima da Rádio nesse momento?

LCS - Aquele início também me levou a radiofonizar a série Quem Conta um Conto. O Allan Lima era o diretor da Rádio. Eu escrevia, entregava os scripts e alguém produzia. Eu não gostava muito do resultado, nem o Allan. Aí ele pensou que eu poderia dirigir o radioteatro, e levou meu nome ao superintendente, que era o Avelino. No dia marcado para assinar o contrato, o Avelino voltou atrás, sem maiores explicações, deixando o Allan contrafeito. Comecei a somar com outras coisas e descobri que o meu nome não era bem visto nos meios oficiais, talvez pelo que eu havia escrito em matéria de teatro. Com isso, eu não entrei para a Rádio MEC naquele momento. Tive depois uma temporada meteórica e desastrosa em certa fase da TV Rio, até que apareceu uma oportunidade de voltar à JB - ela estava se mudando do prédio antigo da Avenida Rio Branco, onde eu havia trabalhado, para a Avenida Brasil, a sede nova. Havia uma vaga entre os produtores e o Fernando Veiga me ofereceu o lugar. A situação da tevê era altamente complicada, não pagavam de maneira nenhuma - era uma loucura aquilo lá! Então, entrei com uma ação no ministério do Trabalho pra receber o período que tinha ficado na TV Rio e fui para a JB, como programador e produtor, isso em outubro de 74.

AO - Quem dirigia a Rádio JB?

LCS - Era o Carlos Lemos, jornalista encarregado do projeto da TV JB, então acumulando com a direção da Rádio. Fernando Veiga tinha um cargo equivalente ao de gerente e o Cleber Pereira ocupava a coordenação. Ali reencontrei amigos como Célio Alzer, o Ney Hamilton, o Elmo Rocha. O clima era muito bom, mas era outra época, não a do edifício antigo, simpático, da Rio Branco, e sim na sede moderna e um tanto fria da Avenida Brasil. Vivia-se também aquele clima de repressão, de cuidado com a divulgação de notícias. Mas me deram uma incumbência boa: de participar do programa Noturno, que era produzido em rodízio pelo Simon Curi e pelo Alberto Carlos Carvalho, tendo Eliakim Araújo na apresentação. Como o Eliakim tinha assumido o horário da manhã, eles tinham que escrever o programa e separar os discos de véspera. Fernando Veiga sugeriu que o Noturno ficasse mais jornalístico, incluindo entrevistas sobre cultura, uma espécie de talk show, digamos assim. O Eliakim continuaria como mestre de cerimônias, mas as entrevistas seriam feitas por mim, durante o dia, quando as pessoas podiam passar pela Rádio.
Como o Noturno ia ao ar de segunda a sexta, e na terça entrava o Especial JB, aos cuidados do Simon, a produção era dividida por três, dois dias para o Simon Cury, dois para o Beto, mais dois para mim - que ainda fornecia as entrevistas gravadas e editadas para os outros programas. O problema maior eram as férias do Eliakim. Nessas ocasiões tínhamos de improvisar com um locutor disponível. Mas a substituição era difícil, porque o Eliakim já identificava o programa - o Noturno começou em 72, estávamos em 74/75. Em uma dessas ocasiões Fernando Veiga chegou pra mim e disse: "Olha, eu acho que você podia, além de entrevistar, apresentar o programa nas férias do Eliakim, pra gente ver como é que fica. Acho que você pode descomplicar esse problema." Concordei, mas os primeiros dias foram constrangedores: eu não pegava a embocadura, até que comecei a brincar e a me soltar diante do microfone, e a coisa passou a funcionar. Claro que o Eliakim, quando voltou, não gostou nada de ser deslocado do Noturno. Mas ele já era a principal voz da JB, ocupando as manhãs da Rádio. Além de apresentar as duas primeiras edições de O Jornal do Brasil Informa, ele tinha um programa matinal de entrevistas, mais gravações de comerciais. Passado o mal-estar inicial, a idéia vingou e eu fiquei, de 76 em diante, produzindo e apresentando o Noturno..

AO - Era ao vivo?

LCS - Era gravado à noite, o que dava maior atualidade às informações. Mas houve época em que passamos a fazer ao vivo, o que possibilitava a participação do ouvinte pelo telefone. Na verdade, muitas coisas boas me aconteceram na época do Noturno, embora eu não tivesse criado o programa. Com a saída do Simon Curi fui encarregado pela direção de produzir também o Especial JB, talvez o programa de maior prestígio da emissora.- a biografia semanal de um grande artista, com chamada no jornal e, no dia seguinte, a transcrição da entrevista no Caderno B. Com o Beto Carvalho se voltando para outro setor, eu fiquei sozinho nessa produção - tinha apenas um assistente, e a participação do Ney Hamilton nas entrevistas. O Noturno tinha uma hora de duração e era como se eu tivesse uma cadeira de pista ou de calçada, num bar, onde passasse todo mundo importante. Quem fosse lançar um disco, uma peça ou se apresentar em show chegava para falar de seu trabalho. Dentro em breve entrava também por literatura e artes plásticas, cinema ou balé, enfim, toda a produção cultural da cidade. Essa fase foi muito enriquecedora do ponto de vista pessoal e profissional, até que mudanças da programação da JB levaram à entrada das transmissões de futebol e isso começou a colidir com o horário do Noturno.

AO - Sobre a experiência do Noturno, quanto tempo?

LCS - O Noturno nasceu em 72, eu cheguei em outubro de 74 e produzi até 83, mais ou menos. Em 80 fui premiado pelo Museu da Imagem e do Som com o Golfinho de Ouro em Rádio. Pouco depois houve a oportunidade de uma experiência nova em uma oficina de produção radiofônica, na Rádio MEC. Você e Marlene Blois me propuseram trabalharmos em conjunto com os funcionários da casa, com apoio do diretor Heitor Salles. Os objetivos eram promover o aperfeiçoamento profissional dos radialistas e rediscutir a linguagem do veículo, estimulando idéias de novos programas. Dali saíram frutos muito valiosos. Talentos se mostraram, como Zé Zuca e Mário Negreiros, por exemplo, e o formato do programa SOS Língua Portuguesa. Mas o principal foi o espaço aberto para a troca de informações, o intercâmbio entre as pessoas, arejando as cabeças e as formas de fazer rádio. Daí nasceu um convite do Heitor Salles para que eu assumisse a direção da MEC FM. Aceitei, até porque tinha diminuído minha carga de trabalho na JB. Mas foi uma experiência que durou pouco porque a direção da JB, quando soube disso, fez uma proposta - a mim e ao Antonio Hernandez, que também trabalhava nas duas emissoras - para darmos exclusividade ao Sistema JB. Nessa altura estava acabando o futebol e a rádio buscava nova formulação, mais jornalismo, all news, outras atrações. Defendi a idéia de voltarmos a ocupar o horário de fim de noite, tentando recuperar a audiência do Noturno que havia se dispersado. Sugeri um programa maior, com outro título, e uma feição um pouco diferente, com dois apresentadores: o Mauricio Figueiredo e eu, nos revezando pra poder dar conta da programação. O título mudou para Arte Final Variedades. Os ouvintes aprovaram, porque era feito ao vivo, não mais gravado. Para substituir o Especial JB ia ao ar às terças-feiras, também ao vivo, outra atração: As 10 mais da sua vida, série que chegou a 219 convidados na JB e depois prosseguiu até o número 394 na Rádio MEC. Era uma pesquisa sobre a memória musical dos brasileiros, e mais tarde se transformou no tema de minha dissertação de mestrado na UFRJ.

AO - Os telefonemas iam ao ar?

LCS - Não: o assistente de produção - primeiro o Jorge Martins, depois o David Trompowski, e até o Sérvio Túlio exerceu essa função - pegava as sugestões, opiniões e pedidos dos ouvintes e passava ao apresentador. De repente, artistas iam lá; uma noite, apareceram o Perry Salles e a Vera Fischer, na pausa de uma excursão teatral que estavam fazendo. Uma noite surgiu João Gilberto, infelizmente depois que eu saí. Nessa época foi contratado para superintendente do Sistema JB o Geraldo Leite, da Eldorado de São Paulo, que me convidou para coordenador da Rádio em todos os horários. Eu coordenava o horário noturno, e passei a responder pelo diurno também. Me lembro que no prazo de dois meses colocamos no ar 14 programas novos na Rádio. Escalando João Maximo, Tarik de Souza, Jota Carlos e Ana Maria Badaró, entre outros, para produzir e apresentar novas atrações. E com isso nós dinamizamos a Rádio. Mas aí esbarramos em um obstáculo que era o declínio do AM, no sentido de faturamento publicitário. As agências e os clientes diretos privilegiavam a faixa FM - que estava subindo de audiência - ou investindo em televisão. Então chegou o dia em que a Rádio resolveu reduzir os seus quadros. E, com isso, foi dissolvida a minha equipe, que funcionava como um departamento cultural - nós tínhamos um grupo de produção paralelo ao jornalismo, mas entrosado com ele, gerando entrevistas e programas. Mas todo esse esforço se chocou com a realidade econômica. Tive no entanto, ainda nesse período, o prazer de participar de outros projetos radiofônicos, um deles convidado pela BBC de Londres para roteirizar e coordenar a pesquisa da série O Rádio no Brasil, comemorativa dos 50 anos do Serviço Brasileiro da BBC. O outro foi a descoberta da vitalidade e importância da peça radiofônica na Alemanha, participando de seminários sobre o assunto e escrevendo textos sobre temas brasileiros produzidos pela emissora WDR, de Colônia.

AO - Fale um pouco mais dessa questão da decadência da AM e ascensão das FMs.

LCS - Bem, no Rio, a transmissão em FM foi explorada primeiro pela Rádio Imprensa, mas como música de elevador e sonorização de ambientes. No começo da década de 1970 surgiram a Eldorado, a Tupi e a JB, em 73, quando são lançados os novos aparelhos de som com faixa de freqüência modulada e som estéreo. Essas emissoras se apresentavam voltadas para a classe A e caracterizadas por uma programação musical sofisticada, com o mínimo de conversa. A JB/FM transmitia o dia inteiro grandes orquestras, grandes orquestrações populares internacionais, e de 20 às 23 horas entravam então os Clássicos em FM, uma programação especial, a cargo do Antonio Hernandez e do Edino Krieger, que editavam um boletim distribuído gratuitamente com o mês inteiro da programação. Os grandes anunciantes interessados na classe A, como companhias de aviação, fabricantes de bebidas etc. patrocinavam esses programas. Por paradoxal que pareça, até a redemocratização do país contribuiu para piorar as coisas, trazendo concessões de emissoras a políticos, religiões pentecostais e outras, menos interessadas na linguagem radiofônica. Aí, toda a faixa AM ficou muito poluída, o que transformou a JB em um corpo estranho - uma rádio que visava qualidade, tinha produções culturais, mantinha uma equipe jornalística numerosa, e que não conseguia sair do vermelho no fim do mês. Então, chegou o momento do castelo cair ou ter suas pretensões reduzidas. A redução não foi suficiente, até que a Rádio foi vendida.

AO - A Rádio Cidade surge como?

LCS - O Sistema de Rádio JB percebeu que tinha uma boa FM voltada para classe A, e uma AM voltada mais ou menos na mesma direção, embora deficitária.. E que precisava de uma rádio capaz de alcançar outro público, mais diversificado. Devia ser em FM, tanto por ser um modelo de instalação mais econômica quanto por representar um mercado em ascensão.Daí descobriram estar à venda uma emissora de Niterói, muito modesta, na qual puseram o nome fantasia de Rádio Cidade, e que foi instalada no prédio do JB, junto com as outras. Nesse ponto, é bom esclarecer um fato meio controverso, já que, segundo tenho visto e lido nos últimos tempos, não faltam "pais" para filhos bonitos e de sucesso. Mas quem, na verdade, sugeriu e implantou o modelo de locução e programação da Rádio Cidade foi o Carlos Towsend, sobrinho da Condessa Pereira Carneiro. Esse rapaz tinha estudado rádio nos EUA e voltara empolgado com o estilo das rádios norte-americanas. Existiam duas propostas: a de uma emissora convencional, parecida com as outras, porém mais popular; e o modelo que o Towsend propunha, de 5 ou 6 apresentadores-operadores, podendo improvisar sobre os textos, fazer humor, e com uma serie de bossas, além da novidade da programação musical voltada para o gênero discoteca. Era o formato pra conquistar a audiência jovem, que estava afastada do rádio, pois a faixa FM só pensava no público acima dos 30 anos. A direção calculava que a Rádio Cidade levaria pelo menos três meses para chegar ao primeiro lugar e ela chegou no primeiro mês - o Ibope se surpreendeu quando flagrou os motoristas ouvindo uma rádio que eles não sabiam qual era, a quem pertencia. Só então o Sistema JB promoveu campanha publicitária e a Cidade foi um acontecimento, sem dúvida nenhuma. A JB passou a ganhar em duas frentes: na classe A madura, na JB FM, e também na juventude das classes A/B/C, com a Rádio Cidade. Com isso, as grifes e as butiques começaram a anunciar na rádio. Podia-se lamentar o pouco espaço da mpb na programação da Cidade. Mas reconheço que o Carlos Towsend apostou na novidade da época, o gênero discoteca, e dirigia os comunicadores com pulso firme. Era um modelo novo que o jovem adotou, porque era dançante e irreverente - características ausentes do rádio da época.

AO - Retomando, então. Você sai da JB e vai para onde?

LCS - Eu saí em 92 da JB e em 93 fui para a Rádio Nacional - o que me interessava muito por causa do livro Rádio Nacional o Brasil em Sintonia, que eu tinha escrito com a Sonia Virginia Moreira e que tinha ganho em 84 um premio da FUNARTE. Eu continuava interessado em compreender o fenômeno da Rádio Nacional e ampliar a obra, atualizando observações - e o fato de vê-la por dentro foi muito importante. No fim desse mesmo ano, o Jorge Guilherme veio para a Rádio MEC e me convidou, e eu fiquei durante algum tempo produzindo programas, prestando serviços para a MEC.

AO - Como era a Rádio nesse momento? Como você sentia a Rádio nesse momento, em relação com as outras que você conhecia?

LCS - Para mim era muito visível um certo clima de serviço público na Rádio MEC, porque eu vinha de muitos anos em empresa particular. Mas quando retornei tive a impressão de que a realização da oficina havia contribuído para aquecer o ambiente de trabalho. Encontrei aqui, nos anos noventa, um clima mais estimulante, mais participativo, as pessoas menos temerosas de enfrentar novos desafios. Mas nesse momento eu ainda digeria o trauma de ter visto a JB acabar, contabilizava outros naufrágios, como o da Nacional, e sentia não ser impossível que o mesmo acontecesse à Rádio MEC, por qualquer acidente de percurso. Imaginava como seria se os ouvintes não fossem apenas receptores, mas se houvesse alguma forma de participação deles em favor da emissora que sintonizam, como acontece em outros países. Se isso é mais utópico com relação às emissoras comerciais, não parece contrariar a filosofia das emissoras públicas ou oficiais, ao contrário. Daí começou a surgir a idéia de uma coisa que nunca foi tentada entre nós, e assim nasceu a Sociedade dos Amigos Ouvintes da Rádio MEC, isso em 1991/2.

AO - Foi um ano trabalhoso, aquele. Discussão de estatuto, essa coisa toda de como fazer, e o apoio importante do Sergio Cabral, pai.

LCS - É verdade. Mas em abril de 92 a Sociedade já estava de pé, para dar a oportunidade da sociedade civil se manifestar com relação ao rádio. Pois o Governo só via o rádio em termos quantitativos, falando em implantar 10 mil emissoras no ano 2000. Hoje, estão em 3 mil e poucas, imagine se tivéssemos 10 mil, que loucura não seria - sem patrocinadores, sem dinheiro, o país em crise. Então tudo isso nos leva à necessidade de se pensar melhor o rádio, se pensar o destino do rádio, para onde ele está indo Afinal, eu vivi a Era do Rádio - não como profissional, mas como ouvinte e cidadão, acompanhei a transição para o rádio moderno, participei do rádio contemporâneo. Constatei que de qualquer forma o rádio sobrevive, se comunica, presta serviços e informa, acompanha o ouvinte. No período final da JB eu vi uma realidade desmoronar. A Rádio tinha prestado grandes serviços à sociedade brasileira e eu não tinha ilusões de que ela pudesse sobreviver às dificuldades enfrentadas. Ao mesmo tempo, me chamava a atenção a marginalização do ouvinte nesse processo, como se ele não tivesse nada com isso, fosse um alienado. Felizmente as nossas conversas frutificaram no sentido de tentarmos mostrar a possibilidade da sociedade civil se envolver no assunto rádio, apoiar uma emissora tentando preservar o que constitui a sua característica, a sua filosofia básica, a sua essência - no caso da Rádio MEC o rádio educativo, uma raridade entre nós, porque só tem mesmo a Rádio MEC fazendo isso e mais algumas emissoras universitárias espalhadas pelo Brasil, quase todas lutando com todo tipo de carências. A Rádio MEC tem mais visibilidade, porque ela está presente na ex-Capital da República e também em Brasília. Então, ela deveria ter toda atenção do poder público para cumprir sua missão, e eu acho que o fato de existir uma sociedade de amigos que seja uma espécie de consciência critica dentro do processo, pode trazer resultados. E a repercussão da Sociedade de Amigos da Rádio MEC provou que havia um espaço, tanto que acorreram pessoas que, na verdade, nem conhecíamos, como o professor Jorge Luiz de Souza e Silva - que acabou presidindo a primeira diretoria - mais o apoio de gente como a professora Maria Yeda Linhares, do Edino Krieger, do Ary Vasconcelos, e tantos outros que acorreram espontaneamente para fundar a Sociedade de Amigos. Isso prova que havia uma razão de ser pra ela. Entre as propostas trazidas pela Sociedade de Amigos Ouvintes da Rádio MEC havia uma que frutificou e que era exatamente contra a rotina dos programas gravados. Tudo era gravado - as pessoas não sabiam mais fazer programas ao vivo, economizando fitas, evitando desperdício de tempo, de operadores e tudo mais - e essa proposta frutificou. Tanto que, hoje, a própria Rádio mantém o Ao Vivo entre Amigos, e outros programas do gênero no auditório sinfônico. Também resultou positiva a Biblioteca, embora não tenha uma procura muito grande de consulta, mas está ai a Biblioteca Tude de Souza, da SOARMEC, instalada com seus volumes de uma literatura básica e até bastante atualizada sobre rádio, para servir ao publico em geral, aos estudantes e pesquisadores e aos profissionais de rádio.

AO - Que outras realizações da SOARMEC você citaria?

LCS - Acho que tem sido estimulante a participação em pequenas coisas, como a instalação, nos corredores da Rádio, de retratos mostrando quem foi quem dentro da Rádio MEC, como o próprio Roquette-Pinto e a equipe de produtores e programadores de outros tempos - Cecília Meireles, Fernando Sabino, Carlos Drummond. Enfim, essa preocupação de documentar o passado e o presente da Rádio é uma coisa positiva, embora muita gente não goste disso, ou se sinta melindrada com isso. Mas eu acho positivo, sim, porque é um confronto pra mostrar como o rádio era feito, porque temos que aproveitar a experiência do passado, não copiá-la, mas para traduzi-la de uma maneira atual, contemporânea. Um exemplo disso foi a série Visão da Literatura, com adaptação em capítulos da leitura do Memorial de Aires, de Machado de Assis, que foi feito na gestão de Regina Salles com o apoio do Fundo Nacional de Educação. Foi um trabalho que trouxe de volta a narrativa sonora, um gênero praticamente ausente do rádio. Até hoje a BBC faz isso: um livro é lido antes da meia-noite, em capítulos, também. Então esse exemplo deveria frutificar.
Outra coisa seria o documentário radiofônico. Nós fizemos alguns, sobre Roquette-Pinto, sobre Paulo Tapajós e sobre Almirante, que eu me recorde. Então, é preciso que o rádio não seja apenas musical ou apenas jornalístico. Uma emissora educativa não pode ficar num samba de uma nota só. Ela tem que variar a programação, tem que se preocupar, por exemplo, com a língua portuguesa. Se os jornais tem agora colunistas que focalizam os erros mais comuns de nosso idioma, e isso tem leitores, por que o rádio - que é muito mais eufônico e coloquial - não faz isso? Mas deveria ter, como já teve, aliás, não só português, como outras línguas. Hoje em dia o espanhol é a segunda língua mais estudada e o Mercosul é uma realidade. Nós e a Argentina estamos muito mais ligados que em qualquer outra época da nossa história, então não vejo porque não ter um programa de espanhol. Outra iniciativa da SOARMEC que deu certo foi a de lançamentos de discos do acervo da Rádio, e que se expandiu, tomou até outro rumo mais atual, feito pela Rádio MEC.
Então, tudo indica que, nos quase 11 anos da Sociedade dos Amigos Ouvintes da Rádio MEC, o saldo é positivo. Lastimo porém que as comemorações dos 80 anos do rádio no Brasil e dos 80 anos de fundação da Rádio MEC estejam aquém do que se poderia esperar desse ano, como gerar debates, seminários, estudos, publicações que pensassem melhor o rádio. Esta seria a oportunidade de uma grande comemoração, que não está sendo aproveitada. Tenho a impressão que isso seria mais que necessário: seria urgente. Não se justifica que o rádio só seja comentado quando faz aniversário, o que acontece de 10 em 10 anos. Só em uma data redonda os jornais e as televisões abrem espaço para o rádio e o próprio rádio abre espaço pra ele. É absurdo, porque esse espaço deveria ser permanente. Enquanto isso, a Sociedade de Amigos Ouvintes está aí, com uma vela acesa, esperando contribuições, esperando trocas, esperando oportunidades de trocas maiores, e de trocar influências e colaboração. Por que não?

PESQUISADO E POSTADO, PELO PROF. FÁBIO MOTTA (ÁRBITRO DE XADREZ).
REFERÊNCIA:
http://www.soarmec.com.br/saroldi.htm

292ª HOMENAGEM: ROQUETTE PINTO.

ROQUETTE PINTO.

O Início da Rádio.

O poeta e jornalista Amadeu Amaral, Secretário da Gazeta do Rio e cronista de O Estado de S. Paulo, teve vontade de rir. Fora convidado por seu amigo Edgard Roquette-Pinto para ouvir uma transmissão experimental da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que este acabara de fundar. Roquette contara-lhe maravilhas do rádio, mas o preparara para o espetáculo que o esperava.

Como todo mundo em 1923, Amadeu Amaral ouvira falar da nova invenção. Sabia que era uma forma de transmitir sons à distância, um misto de telégrafo com telefone, mas nunca escutara uma transmissão. Em sua fantasia, deveria ser uma coisa da alta ciência, cheia de aparelhos complicados. Daí a sua surpresa ao adentrar a casa de Roquette, na Rua Vila Rica, em Botafogo, e deparar-se com um cenário de circo de cavalinhos.

Uma vara de bambu, plantada no jardim, servia de antena. Dela escorriam fios de cobre, que iam até a sala e se enfiavam numa bobina de papelão, a qual devia ser o aparelho. Deste saíam uma tomada de terra, comicamente ligada à torneira da pia, e um fone comum, de telefone, para ser aplicado à orelha. Uma geringonça infantil, primitiva e precária. Amadeu Amaral achou graça. Aquilo é que era o rádio.

O Fundador

Amadeu Amaral esperou o pior: iria escutar grunhidos estalos e chiados, e, para não desagradar seu anfitrião, teria de dizer a Roquette que o rádio era mesmo a oitava maravilha. Olhou resignado para a engenhoca, aplicou o fone ao ouvido – e, em vez da cacofonia que imaginava, escutou os poemas e trechos de ópera que estavam sendo irradiados a quilômetros dali, na estação da Praia Vermelha. “Tudo tão perceptível como se os sons se originassem a dois passos. Aquela caranguejola ridícula funcionava maravilhosamente”, ele escreveria entusiasmado em O Estado de S. Paulo.

Amadeu Amaral fez mal em duvidar. Afinal, ele conhecia Roquette-Pinto.

Em abril de 1923, quando estava fundando a primeira emissora de rádio do Brasil, Edgard Roquette-Pinto tinha 39 anos incompletos. Era, por qualquer critério, um homem impressionante: atlético(1m78), bonito e, como dele diria Gilberto Freyre, “com algo de imperialmente brasileiro no seu porte”. Havia até quem o achasse parecido com Goethe. Mas sua reputação não repousava na figura física, embora esta provocasse suspiros em admiradoras, muitas das quais alimentaram suas paixões por ele (e algumas correspondidas). Roquette-Pinto não era apenas amado pelos que o conheciam. Era nacionalmente admirado pelo que já fizera pela ciência brasileira. A introdução do rádio no país era, a rigor, apenas a sua segunda ou terceira façanha, e estaria longe de ser a última.

Quando se avalia hoje o monumento legado do carioca Roquette-Pinto ao Brasil, parece inacreditável que um único homem pudesse fazer tanto. Estamos desabituados a esses homens-multidão, capazes de aplicar sua inteligência e ação a interesses tão amplos e múltiplos. Mas, no caso de Roquette, talvez ele não tivesse escolha. O Brasil de seu tempo era enorme, muito maior que o de hoje, e estava todo por ser feito. Com seu dinamismo científico, filosófico e até, espiritual, Roquette-Pinto não podia esperar que surgissem outros Roquette-Pinto para ajudá-lo. Enquanto esses não surgissem, ele viveria de mangas arregaçadas.

Sua biografia ainda não foi escrita e quando o for, não caberá num único volume. Só através dela poder-se-á reconstituir o que o levou – desde o seu nascimento, no dia 25 de setembro de 1884, em Botafogo a preparar-se para tantas atribuições. Pode ter sido a influência do homem que, na verdade, o criou: não o seu pai, o rico advogado Menelio Pinto de Mello, mas seu avô materno o fazendeiro João Roquette Carneiro de Mendonça, em cuja fazenda Bela Fama, perto de Juiz de Fora, o menino Edgar passou três anos. O pouco contato com a família do pai levou-o até a alterar seu nome de registro – Edgar Roquette Carneiro de Mendonça Pinto Vieira de Mello – para Edgard Roquette-Pinto, com um hífen de que não abria mão. Em 1905, quando se formou pela Escola de Medicina, Edgard legalizou seu novo sobrenome e depois, estendeu-o aos seus descendentes. Quanto ao prenome, chamava a si próprio de Édgar, não Edgár.

Além do avô João Roquette, que lhe pagou os estudos e lhe transmitiu seu amor à natureza, outros dois homens foram decisivos para o destino de Roquette, o primeiro, o biólogo Francisco de Castro, que o fez desistir da idéia de tornar-se oficial da Marinha e convenceu-o a navegar pelo mundo ainda mais aventuroso da medicina e da biologia. O segundo, o médico Henrique Batista, que o converteu ao Positivismo - a doutrina fundada pelo francês Augusto Comte (1798-1857), segundo o qual a redenção do homem se daria pelo conhecimento. Mas, embora fosse prodigiosamente estudioso, havia algo em Roquette que parecia atraí-lo para fora dos gabinetes. Sua própria tese de formatura, O Exercício da Medicina Entre os Indígenas da América, já insinuava seu rumo futuro: a antropologia.

Roquette, o Antropólogo

Em setembro de 1906, Roquette partiu para o Rio Grande do Sul a fim de estudar os sambaquis – as jazidas de conchas, ossos e utensílios do homem pré-histórico que habitou o litoral da América. E daí também porque, depois de alguns anos como assistente de Henrique Batista (com cuja filha Riza casou-se em 1908) e como médico-legista no Rio, Roquette deu uma guinada em sua carreira: tornou-se, por concurso, professor da cadeira de antropologia e etnografia do Museu Histórico Nacional, na Quinta da Boa Vista. Ali, em 1911, ele conheceu o homem que, este sim, o marcaria para sempre: o tenente-coronel Cândido Mariano da Silva Rondon.

O mato-grossense Rondon, nascido em 1865, já estava nas selvas do Amazonas e do Acre desde 1890, desbravando a mata, criando povoados, demarcando fronteiras, estendendo linhas telegráficas e fazendo os primeiros contatos com tribos à margem de qualquer civilização, como os parecis, os kabixis , os tapanhumas e os cajabis. Como Roquette, Rondon também era positivista e acreditava na ciência e na fraternidade como molas para o progresso. Levava geólogos, cartógrafos e outros peritos em suas expedições e, ao voltar de cada uma, trazia amostras de objetos paleolíticos e os entregava ao Museu Nacional. Muitos desses objetos caíram nas mãos de Roquette, que se debruçou fascinado para estudá-los. Deles resultou o seu documento Nota sobre os Índios Nhambiquaras do Brasil Central, que leu num congresso de americanistas em Londres, em 1912.

Era a primeira vez que Roquette saía do Brasil- mas, ao pôr o pé no navio para a Europa já acertava um compromisso com Rondon: iria acompanhá-lo na sua próxima expedição à Serra do Norte. A idéia de defrontar-se com brasileiros que, em plena alvorada do século XX, ainda viviam na pré- história, era muito mais excitante para ele do que qualquer congresso científico nas estranjas.

Em julho daquele mesmo ano, de volta ao Brasil, Roquette seguiu com destino a Mato Grosso, para juntar-se a Rondon. Tinha 27 anos. Os quatro meses seguintes seriam uma saga de extraordinária importância para o conhecimento do Brasil - porque, pela primeira vez, Rondon viajava com um homem à sua altura. Roquette-Pinto, sozinho, valia por uma equipe de cientistas.

Naquela expedição ele foi etnógrafo, sociólogo, geógrafo, arqueólogo, botânico, zoólogo, lingüista, médico, farmacêutico, legista, fotógrafo, cineasta e folclorista. Anotou toda a aparência da região – da floresta à árvore e à folha – a composição dos solos, o contorno das montanhas, o fluxo dos rios, a intensidade das quedas e a riquíssima variedade da fauna. Nas visitas às tribos já pacificadas, mediu os crânios dos índios, comparou seus pesos e altura, analisou suas endemias e descreveu suas formas de produção, comércio e transporte. Registrou seus conhecimentos científicos, relações familiares, organização política, hábitos religiosos, formas lingüísticas, habilidade manual, cantos e danças. E ainda realizou a primeira dissecação de um indígena – na verdade, uma indígena – de que se tem notícia.

Roquette não deixou um fio solto. Anotou musicalmente os cantos dos nativos e não contente, gravou-os em cilindros de cera com o fonógrafo portátil que se usava na época. Filmou tudo que pôde e fotografou ou desenhou o resto. Sem contar o que recolheu de pedras, pontas de flechas e objetos indígenas, que transportou pelos milhares de quilômetros através de rios, pântanos e picadas abertas na selva. O que sobreviveu desses fonogramas, filmes, fotos, fichas antropométricas e objetos, conservados até hoje no Museu Nacional, dá só uma vaga idéia das condições em que tudo isso foi realizado. Roquette foi um Indiana Jones da vida real, só que mais heróico – porque verdadeiro.

Roquette, o Explorador

No monstruoso percurso pelas selvas do Mato Grosso e do Amazonas e pelas bacias dos rios Paraguai, Jurena e Gi-Paraná, a morte acompanhou cada passo de Rondon, Roquette e seus homens. Dias e dias de caminhada podiam ser feitos sem sol visível, debaixo da espessa vegetação – e se avançassem um quilômetro por dia isso era considerado ótimo. O princípio da expedição era a pacificação dos nhambiquaras, até então arredios a qualquer contato com o colonizador. Arredios e hostis. Os mateiros de Rondon eram flechados à distância por mãos invisíveis; outros eram capturados e devolvidos sem cabeças; e ainda outros se feriam nas armadilhas postas por eles. E havia as ameaças permanentes da selva, como os animais e as doenças - varíola, beribéri, impaludismo. Burros, cavalos e bois iam morrendo e sendo deixados para trás. os homens eram enterrados pelo caminho e Rondon batizava com seus nomes os acidentes geográficos do percurso. Mas, para o sacrifício de cada homem ou montaria, a expedição garantia um pedaço de chão que se incorporava efetivamente ao Brasil.

Para Roquette-Pinto, era tudo um milagre e esse milagre chamava-se Cândido Rondon. Sendo ele próprio mameluco por parte de avós indígenas, e falando os dialetos de várias tribos, Rondon conseguia repassar para os índios sua mensagem de paz – em nenhuma outra época, na história da América, o choque entre o “selvagem” e o “civilizado” foi tão suave e humano. Para isso, seu famoso lema, “Morrer, se preciso for, matar, nunca”, teve de ser, primeiro, entendido pelos brancos que o seguiam. Daí Roquette extraiu uma compreensão do problema do índio que, até hoje, é revolucionária: “Nosso papel social deve ser simplesmente proteger, sem procurar dirigir nem aproveitar essa gente. Não há dois caminhos a seguir. Não devemos ter a preocupação de fazê-los cidadãos do Brasil. Todos sabem que índio é índio, brasileiro é brasileiro. A nação deve ampará-los e mesmo sustentá-los, assim como aceita, sem relutância, o ônus de manutenção dos menores abandonados ou indigentes e dos enfermos”.

Os nhambiquaras contatados por Rondon e Roquette viviam na Idade da Pedra em 1912. Seus machados eram de pedra mal polida. As facas eram lascas de madeira. Não conheciam a navegação, a cerâmica ou as redes de dormir – donde atravessavam os rios a nado, comiam de mão para mão e dormiam direto no chão. Eram cobertos de bernes, pulgas e piolhos. Nunca tinham visto um homem branco ou negro. E o mal que faziam era, muitas vezes, por ingenuidade: ao ouvir o zumbido dos fios telegráficos, pensavam que o poste ocultava uma colméia e o derrubavam em busca do mel. Quando Rondon finalmente conseguiu que se aproximassem do acampamento (o que se deu à zero hora de uma noite memorável para Roquette), seus presentes para eles foram de um comovente simbolismo: machados de aço. Poucos anos depois, os nhambiquaras, já “evoluídos”, iriam rir de seus velhos machados de pedra.

De volta ao Rio em novembro daquele ano. Roquette depositou no Museu Nacional cerca de uma tonelada e meia de objetos que trouxe da Serra do Norte. As anotações musicais foram entregues a Villa-Lobos, que as elaborou em composições que assinou com Roquette. Em seu organismo, Roquette trouxe também o impaludismo, a cujas seqüelas iria atribuir a doença que o acometeria na maturidade. Mas sua própria volta à cidade já era, para muitos, uma proeza: como um homem tão urbano, de hábitos tão refinados, um elegante intelectual carioca, podia ter sobrevivido à brutalidade da vida na selva?

Uma explicação poderia ser a grande parte da infância passada na fazenda de seu avô. O mato não lhe era estranho. Mas há uma diferença entre as bucólicas fazendas mineiras e o sertão com seus perigos à traição. Poder-se-ia argumentar também que, aos 27 anos, Roquette era jovem e forte, e que, quando ainda mais moço, fora esportista: remara durante anos pelo Botafogo, no tempo em que o remo formava os atletas mais completos do Rio. Mas não há comparação entre um domingo de regatas e atravessar alagados carregando equipamento e com água pelo pescoço. A única explicação está na pétrea determinação de Roquette: impusera-se uma tarefa e tinha de cumpri-la. E os que o conheceram sabem que ele só precisava disso para agir.

O poeta Carlos Drummond de Andrade, que só viria a conhecê-lo muito depois, definiu-o como “um civilizado a quem a civilização não faria falta, porque seria capaz de reconstituí-la dentro da mata, adaptando-se ao meio e extraindo dela valores culturais, sem perda do instinto nativo, ou por um refinamento prodigioso desse mesmo instinto”. Mas Roquette fez ainda mais: de volta à cidade, reconstituiu pela palavra a cultura da selva.

A grande bagagem que trouxe da expedição foram as anotações e as memórias de tudo que havia presenciado e vivido. Com elas, Roquette passou os quatros anos seguintes escrevendo o livro que, por si só, garantiria o seu lugar na imortalidade: Rondônia.

Um monumental tratado antropológico, botânico, geológico, climático, zoológico e etnográfico de uma vasta região do Brasil entre os rios Juruena e Madeira, compreendendo partes do Mato Grosso, Amazonas, Pará, Acré e Guaporé. O fio condutor era, claro, a expedição de 1912. Mal publicado o livro, em 1916, tornou-se lugar-comum dizer que Rondônia estava para a saga de Rondon como Os Sertões, de Euclides da Cunha, estava para a de Canudos. Os dois livros revelavam um Brasil que, até então, muitos brasileiros julgavam existir apenas na imaginação dos poetas. Para Roquette, não poderia haver elogio maior do que ser comparado a Euclides (aliás, colega de turma de Rondon na Escola de Cadetes da Praia Vermelha, classe de 1888) – porque, para ele, Os Sertões era comparável aos Lusíadas ou a Dom Quixote.

Roquette e Rondônia

No futuro, mais precisamente em 1956, o crítico e ensaísta Álvaro Lins estabeleceria uma outra virtude de Rondônia: a literária. Segundo ele, era pela força estilística de seu tratado científico (e não pelos fracos contos e poemas que depois escreveria) que Roquette-Pinto fazia parte da literatura brasileira. E Gilberto Freyre, outro exigente no seu julgamento dos colegas, nunca deixaria de elogiar, ao lado da exuberante escrita de Rondônia, a “segura base cientifica” de Roquette – distinção que não conferia a mais ninguém daquele tempo. Em seu livro Ordem e Progresso, Gilberto menciona treze vezes a seriedade de Roquette. O qual, não importavam as loas, sempre foi modesto ao falar de sua obra-prima: “É um instantâneo da situação social, antropológica e etnológica dos índios da Serra do Norte, antes que principiasse o trabalho de alteração que nossa cultura vai processando. É prova fotográfica – um clichê cru”.

Mas, naturalmente, era muito mais que isso. Suas experiências com os nativos e com os homens do sertão deram a Roquette os instrumentos para desfechar uma campanha anti-racista que atingiria em cheio o arianismo então vigente no Brasil. Para muitos naquela época (como para alguns ainda hoje), nossas mazelas seriam originárias da presença dos negros, mestiços e índios na composição racial brasileira. A tese original era do diplomata francês Joseph Arthur, conde de Gobineau (1816-1882), autor de uma teoria racial da História e que um dia resultaria no nazismo. Uma visão “benigna” do problema, defendida pelo então diretor do Museu Nacional, o antropólogo João Batista de Lacerda, apostava no “embranquecimento” do povo: em poucas décadas, os sucessivos cruzamentos extinguiriam a raça negra no Brasil... Mas Roquette, que via o Brasil como “um imenso laboratório de antropologia”, pensava diferente:

“Nenhum dos tipos da população brasileira apresenta qualquer estigma de degeneração antropológica”, escreveu ele, “Ao contrário. As características de todos eles são as melhores que se poderiam desejar. [...] O número de indivíduos somaticamente deficientes em algumas regiões do país é considerável. Isso, porém, não ocorre por conta de qualquer fator de ordem racial; deriva de causas patológicas cuja remoção, na maioria dos casos, independe da antropologia. É questão de política sanitária e educativa. [...] A antropologia prova que o homem no Brasil precisa ser educado e não substituído”.

O alcance de Rondônia não ficaria por aí. O livro faria a glória do futuro general e marechal Rondon, embora este também desconhecesse por completo o sentimento da vaidade. Um único índio que escapasse ao martírio era-lhe mais importante que os quilos de medalhas que espetavam em sua farda. Mas a verdade é que, sem o livro de Roquette, ninguém poderia calcular a dimensão da obra de Rondon, muito menos seguir o seu exemplo. Mesmo assim, Roquette não se dava por satisfeito. Para que o Brasil soubesse o quanto de seu território devia a Rondon, propôs que esse território- entre os paralelos 8 e 14 ao sul do Equador e entre os meridianos 12 e 20 a oeste do Rio de Janeiro – se chamasse, justamente, Rondônia. A idéia, lançada por Roquette em 1915, numa conferência no Museu Nacional, seria afinal adotada...41anos depois, em 1956, quando uma área muito menor, a do território do Guaporé, passou a chamar-se Rondônia.

Onde, por sinal, não existe até hoje uma única cidade, rua ou arraial com o nome de Roquette-Pinto.

Roquette Patriota

Pouco depois de Rondônia, em 1920, Roquette, de passagem, conquistou a admiração de um povo que dedicara seus últimos 50 anos a olhar para o Brasil com profundo ressentimento e rancor: o do Paraguai. Em 1927, no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, ele defenderia a convicção de que fora o Brasil o responsável pelo início da Guerra do Paraguai, contra a opinião do acadêmico a quem sucedia na cadeira 15: o poeta Osório Duque Estrada, patriotíssimo autor do Hino Nacional.

Ao ouvir aquilo, muitos imortais ficaram inquietos dentro dos fardões. E, já prevendo que alguns ali pudessem acusá-lo de pouco patriota, Roquette jogou cal nos possíveis ataques:

“Pelo progresso de minha terra, tendo arriscado contente, e mais de uma vez, a vida que ela me deu. Mas só compreendo o patriotismo que não precisa de mentiras para manter sua existência”.

Tanta coragem e determinação tornavam Roquette-Pinto um vulto quase onipresente na cena brasileira. As pessoas o apontavam ao vê-lo passar nas ruas, quase sempre com um charuto entre os dedos. Quando não era o charuto, o objeto mais presente em sua mão era um lápis de duas cores (vermelha e azul), com que circulava ou sublinhava qualquer texto que o interessasse. Sabia-se que falava francês, italiano, espanhol, inglês, alemão, tupi e, segundo ele próprio, “um pouco de latim e uma reles lambujem de grego”. Mas podia ser tudo, menos um pernóstico: “Gosto muito de gíria e tenho horror à gramática. Se escrevo certo, é sempre por acaso”, dizia. E sabia-se também que tocava piano, que escrevia poemas sem intenção de publicá-los, que desenhava e pintava e era capaz de montar ou desmontar qualquer aparelho mecânico ou elétrico: “Gosto imenso de trabalhar com as mãos. As mãos é que fazem o homem inteligente”.

Numa época podre em comunicações e rica em mexericos, sabia-se também que ele e sua mulher se haviam separado. Separações eram chocantes naquele tempo, e mais ainda entre pessoas públicas. Mas, no seu caso, não havia motivo para mexericos. Como sua família sempre soubera, Roquette simplesmente não era “casável”. Sua inquietação não lhe deixava muito tempo para os prazeres domésticos ou para desfrutar os dois filhos – Paulo, nascido em 1909 e Beatriz, em 1911. E Riza, ao contrário, era uma mulher com acentuado gosto pelas coisas do lar. Como nenhum dos dois podia mudar sua natureza, afastaram-se de comum acordo, chorando nos braços um do outro. Anos depois, Riza casou-se com um oficial da Marinha, ao passo que Roquette tornou-se o melhor partido do Rio de Janeiro, disponível para as muitas mulheres que o interessavam. Mas nunca voltaria a casar-se.

Não eram apenas as mulheres que o interessavam - tudo o interessava. Dez anos antes, a caminho de juntar-se a Rondon na selva, Roquette percebera a importância da telegrafia na integração dos grotões mais distantes. Agora, em 1922, durante as comemorações do Centenário da Independência do Brasil, ele começara a perceber a importância de uma nova e extraordinária invenção: o rádio.

As Primeiras Transmissões Radiofônicas

Os primeiros a chegar à enorme Exposição do Centenário, instalada na esplanada aberta pelo desmonte do morro do Castelo, no centro do Rio, não deram muita importância às estranhas cornetas metálicas instaladas em alguns postes. Vistas de relance, lembravam as cornucópias dos gramofones em voga em 1922, mas poucos naquele 7 de setembro, dia da abertura da exposição, saberiam dizer para o quê serviam. A multidão estava mais interessada nos luxuosos pavilhões dos países participantes e, principalmente, na montanha-russa armada em frente ao novo palácio Monroe. De repente, ao cair da tarde, as pessoas ouviram assombradas, como se aqueles sons viessem das nuvens, o Hino Nacional e um discurso do presidente Epitácio Pessoa. Como, mesmo naquele tempo, ninguém acreditasse que o hino ou Epitácio tivessem nada de celestial, concluiu-se rapidamente que o som saía pelas tais cornetas. Afinal, era para aquilo que serviam as geringonças penduradas no postes. Eram “alto-falantes” - e era o rádio chegando.

Duas companhias americanas de energia elétrica a Western e Westinghouse, haviam instalado pequenas estações de 500 watts no pavilhão dos Estados Unidos para demonstrar a última novidade. Seus transmissores tinham sido montados, respectivamente, na Praia Vermelha e no alto do Corcovado (ainda sem a estátua do Cristo), com 80 alto-falantes distribuídos pela exposição e por Niterói, Petrópolis e São Paulo. À noite daquele mesmo dia, o assombro foi ainda maior quando os alto-falantes irradiaram a ópera O Guarani, de Carlos Gomes, direto do Teatro Municipal. Bem, assombro em termos. O som era falho e rouco, como se um coro de sapos tivesse entrado pelos alto-falantes e coaxasse em uníssono fazendo passar-se por Epitácio ou por Peri e Ceci. Era preciso apurar as orelhas para se entender alguma coisa. Nos dias seguintes foram transmitidas várias palestras, inclusive uma sobre higiene, mas, àquela altura, o público já desistira de esforçar-se para ouvir.

Em janeiro de 1923, finda a exposição, a Westinghouse desmontou a estação do Corcovado e a levou de volta para os Estados Unidos. Mas a Western conservou a sua na Praia Vermelha, na esperança de que o governo brasileiro se interessasse em comprá-la. O governo se interessou e comprou a estação, mas entregou-a aos Correios para que ela operasse como telégrafo. Não era o que os primeiros radioamadores nacionais estavam esperando. Já havia muitos pelo país, construindo seus próprios aparelhos e comunicando-se entre si no Rio, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco. Alguns dele conseguiram autorização e começaram a usar a Praia Vermelha para transmitir boletins meteorológicos, cotações da Bolsa de Açúcar e Café, santos e efemérides do dia, cançonetas, poemas e outras pequenas atrações.

Mas era quase uma audição para surdos, porque havia um obstáculo legal a que a escuta se espalhasse: para possuir um receptor em casa, o cidadão tinha de “requerer permissão” ao Ministério da Viação através dos Correios e Telégrafos e, ainda por cima, “apresentando fiador idôneo” - um responsável pela integridade patriótica do indigitado. Com os ecos e fumaças da Grande Guerra de 1914-1918 ainda no ar, supunha-se que o rádio podia ser um instrumento perigoso, capaz de levar os segredos militares brasileiros para as potências estrangeiras – donde todo cuidado era pouco. A polícia estava autorizada a prender quem fosse flagrado ouvindo aparelhos desautorizados.

Roquette-Pinto não estava preocupado com segredos ou com militares. Aliás, sua opinião sobre estes era arrojada para a época: era favorável ao serviço militar, mas achava que ele deveria limitar-se a “construir pontes e estradas, aprender um ofício, trabalhar numa coisa útil. [...] A Grande Guerra, aliás, veio mostrar que a vitória caberá a quem melhor abastecer-se. O soldado, hoje, é principalmente um operário. As guerras são ganhas pelos eletricistas, pelos mecânicos, pelos motoristas”. Para Roquette, ao contrário de guardar segredos, o rádio deveria servir para difundir a coisa de que o Brasil mais precisava: educação.

O Rádio em Outros Países

Nos Estados Unidos, a primeira emissora com transmissão regular surgira em 1920, em East Pittsburgh, na Pensilvânia. Ou seja, outro dia mesmo, e, agora, apenas três anos depois, o rádio já passava cerca de 12 milhões de americanos, com mais de cem estações transmitindo. Os Estados Unidos estavam sendo fantasticamente ligados pelo rádio. A Europa também, através da Marconi. Nas fantasias mais otimistas já havia operários ouvindo Mozart, analfabetos bebendo as palavras de Bernard Shaw e gente dos mais distantes rincões sabendo as últimas de Wall Street ou do palácio de Buckinghan, tudo pelo rádio. O rádio era uma arma, mil vezes mais poderosa do que os canhões da Grande Guerra. Roquette começou imaginá-la integrando e educando os milhões de brasileiros dispersos pelos mais de 8 milhões de quilômetros quadrados. Seria como completar, só que em escala nacional, a obra de Rondon.

A Rádio Sociedade do Rio de Janeiro – PR-1-A

Era preciso fundar uma rádio e ele era o homem para isso. Uma rádio educativa, “com fins científicos e sociais”, de preferência ligada a Academia Brasileira de Ciências, da qual era secretário. O primeiro passo era pedir o apoio do presidente desta, Henrique Morize, seu velho mestre. Morize, que era a modéstia em pessoa, assustou-se com a idéia, mas não resistiu ao incandescente entusiasmo do discípulo. Os outros membros da academia foram logos contagiados.

Tratava-se agora de remover os obstáculos. No dia 14 de abril, Roquette soltou pela Gazeta de Notícias a campanha para libertar o rádio da lei que dificultava que os cidadãos possuíssem aparelhos domésticos. Tinha um argumento forte: devido às transmissões da Praia Vermelha, os Correios haviam fornecido 536 licenças especiais apenas nos primeiros meses de 1923. Tal demanda era uma prova de que o Brasil inteiro queria o rádio (uma das licenças, aliás, contemplara o próprio Roquette, embora seu aparelho fosse o que provocara risos abafados em Amadeu Amaral).

Mas só um fato consumado, como a existência de uma rádio, forçaria a queda da lei. Pois ele cuidou de que isso acontecesse: no dia 20 de abril, na sala de física da Escola Politécnica, no Largo de São Francisco, em plena reunião da academia, os cientistas comandados por Roquette fundaram a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro – PR-1-A.

A primeira diretoria já saiu constituída daquela reunião. Morize foi aclamado presidente, Roquette secretário e outros acadêmicos ocuparam os cargos de tesoureiro e conselheiros. Os demais membros da academia assinaram eufóricos a ata de fundação e mais de trezentos sócios-efetivos e associados a subscreveram. Para os padrões daquele tempo, era quase um ato de desobediência civil, praticado por senhores de pincenez e colarinho duro – se se aplicasse a lei, não haveria cadeia no Rio de Janeiro para todos. Mas, numa jogada hábil, Roquette indicou para presidente de honra da Rádio Sociedade o próprio ministro da Viação e Obras Públicas, Francisco Sá – de quem dependeria a revogação da lei que tornava o rádio uma atividade clandestina.

No dia 1º de maio, sob vista grossa da autoridade, a Rádio Sociedade fez a sua primeira transmissão experimental pela estação da Praia Vermelha. Às 20h30 em ponto, Cauby de Araújo, um dos signatários, anunciou a declaração de Roquette-Pinto comunicando a fundação da rádio. Roquette tomou o microfone e, com grande otimismo e exagero, disse: “[A partir de agora] todos os lares espalhados pelo imenso território do Brasil receberão livremente o conforto moral da ciência e da arte pelo milagre das ondas misteriosas que transportam, silenciosamente, no espaço, as harmonias”.

Belas palavras, mas ainda levaria tempo para que o rádio atingisse todos esses lares. E ainda havia a lei “retrógrada e carrança”, como ele a chamava. Mas a pressão deu resultado. No dia 11 de maio, Francisco Sá assinou a revogação: o rádio no Brasil estava finalmente livre. Já era possível ter um aparelho em casa sem ir parar no presídio da rua dos Barbonos, futura Evaristo da Veiga. Ao governo caberia apenas licenciar o funcionamento das emissoras. Uma semana depois, no dia 19, a Rádio Sociedade promoveu a sua instalação solene, usando novamente emprestado o equipamento da Praia Vermelha para a sua transmissão inaugural.

E ponha solene nisso. Roquette e seus colegas reunidos na Escola Politécnica, ouviram emocionados quando, da Praia Vermelha, Edgar Sussekind de Mendonça abriu a transmissão recitando um soneto do próprio Roquette intitulado, bem a propósito, O Raio. Era simbólico: o raio viaja pelo espaço e vai cair sabe-se onde – como o rádio. (A única cópia do poema perdeu-se naquela noite e o autor nunca conseguiu reconstituí-la de memória). Em seguida, Heloísa Alberto Torres, filha do abolicionista Alberto Torres, leu um conto infantil de Monteiro Lobato, de que não há registro do título. E, concluindo, Francisco Venâncio Filho leu uma página de Os Sertões. Com aqueles poucos minutos de vozes no ar, a Rádio Sociedade silenciou e a estação da Praia Vermelha voltou aos seus serviços telegráficos. Mas, para todos os efeitos, uma rádio brasileira ferira pela primeira vez – como se dizia – o éter.

Oficializadas as Transmissões no Brasil

Vibrando com o resultado, M. B. Astrada, sócio-fundador da rádio e representante no Brasil da Casa Pekan, de Buenos Aires, especialista em equipamentos de radiofonia, doou à Rádio Sociedade uma pequena estação emissora e receptora de 10 watts – suficiente para que, com boa vontade, ela se fizesse ouvir no centro da cidade e arredores. Três meses depois, no dia 20 de agosto, o governo federal, já com Arthur Bernardes na presidência, autorizou oficialmente o início das irradiações no Brasil, desde que “para fins educativos”. Bernardes não parou por aí: permitiu que a Rádio Sociedade fizesse uma hipoteca do material emissor no Banco do Brasil, no valor de 100 contos de réis, para instalar a antena e cobrir as despesas. Entre estas, estava a compra de uma estação de 1 quilowatt, fornecida pela Marconi, com a qual a rádio poderia ultrapassar até os limites do então Distrito Federal.

Rádio Sociedade PRA-A começa a funcionar

No dia 7 de setembro – um ano depois da Exposição do Centenário e funcionando no pavilhão doado pela Tchecoslováquia, em frente à Santa Casa de Misericórdia, na rua Santa Luzia -, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, agora com o prefixo de PRA-A, entrou triunfalmente no ar.

Não era nada parecida com a rádio que logo se faria no Brasil. Ao contrário, com seu programa de “educação em massa”, a Rádio Sociedade parecia, a princípio, uma extensão da Academia de Ciências. Os acadêmicos faziam tudo: produziam, escreviam e apresentavam os programas. Roquette dava o exemplo: acordava todos os dias às 5 da manhã, lia os matutinos, circulava com seu lápis de duas cores tudo que lhe parecesse interessante e, duas horas depois, estava diante do microfone apresentando o “Jornal da Manhã”. Lia as notícias, com textobold para o noticiário internacional, e comentava-as para os ouvintes. Outros levavam discos de suas coleções de clássicos e óperas, botavam-nos para tocar e falavam dos compositores, músicos e cantores. Ninguém era pago, era tudo por amor. E havia os que se apresentavam nos programas, recitando poesia, cantando ou tocando piano – entre os quais o próprio Roquette.

Para que não se pense que a rádio era um instrumento de sua vaidade, é bom dizer que Roquette era razoavelmente eficiente ao piano e que sua voz de barítono era elogiada pelos entendidos. Ele próprio era um homem rigoroso: quando, certa vez, o escritor Afrânio Peixoto insistiu em cantar na rádio, Roquette não fez por menos: “Mas, com essa voz, Afrânio ???”. Peixoto caiu em si e contentou-se em recitar poemas de cordel, no que foi acompanhado no piano por Roquette.

Nem tudo era música e literatura. Os acadêmicos também davam palestras e cursos pelo microfone, de acordo com suas especialidades: português, biologia, história, francês, geografia e até silvicultura. O Rio, capital da República, recebia toda espécie de personalidades da área cultural e científica, e um programa obrigatório desses figurões era uma visitação às instalações da Rádio Sociedade – um deles, em 1925, já na Rua da Carioca, 45, foi Albert Einstein.

O amadorismo da rádio era tão flagrante quanto a boa vontade dos que a faziam. A programação também não era de cunho exatamente popular, mas ninguém se importava: os aparelhos eram caros naqueles primeiros tempos, poucos podiam possuí-lo e esses poucos gostavam do que a rádio punha no ar. O que os desagradava era o som terrível das transmissões. Os jornais viviam cheios de cartas protestando contra os ruídos e chiados da PRA-A e temendo pelo futuro do rádio no Brasil, caso aquilo não melhorasse. Roquette, com sua larga visão histórica, não se assustava com a ameaça:

“Nós, que assistimos à aurora do rádio, sentimos o que deveriam ter sentido alguns dos que conseguiram possuir e ler os primeiros livros”, ele disse ao microfone.

Rádio Sociedade – Sem fins lucrativos

“O rádio é a escola dos que não têm escola. É o jornal de quem não sabe ler; é o mestre de quem não pode ir à escola; é o divertimento gratuito do pobre; é o animador de novas esperanças, o consolador dos enfermos e o guia dos sãos – desde que o realizem com espírito altruísta e elevado”. E sempre concluía suas falas com a frase que se tornaria o lema de sua rádio: “Pela cultura dos que vivem em nossa terra. Pelo progresso do Brasil”.

O espírito “altruísta e elevado” a que Roquette se referia significava uma rádio sem fins comerciais – ou seja, sem anúncios. Muito bem, mas quem arcava com os custos das transmissões? Roquette institui um fundo de auxílio à rádio, mantido por associados (que chegaram a três mil em poucos anos) – daí o nome Sociedade. Esse fundo era enriquecido com doações “espontâneas” de casas comerciais.

Quando se viu com mais dinheiro em caixa, a rádio começou a criar um corpo de funcionários fixos e remunerados. Era o início da profissionalização. O primeiro locutor de verdade (speaker, como se dizia e se continuaria a dizer por muitos anos) parece ter sido Rubey Wanderley. Na sua esteira vieram outros locutores, programadores, roteiristas e discotecários, trabalhando por salário. Aos poucos, o dia-a-dia da rádio começou a sair das mãos da Academia de Ciências, embora isso não alterasse o seu espírito: Roquette cuidava de que ela continuasse educativa e se mantivesse à distância de qualquer contaminação política, comercial ou excessivamente popularesca. Mas era de se prever que a Rádio Sociedade não ficaria sozinha por muito tempo no “éter”.

Educação x Propaganda

Em 1924, surgiria a Rádio Clube do Brasil, também nos mesmos moldes de uma “sociedade” (no caso, “clube”) de contribuintes. Nos dez anos seguintes, e só no Rio, apareceriam as rádios Educadora, Mayrink Veiga, Philips, Transmissora, Guanabara, Ipanema, Farroupilha, Jornal do Brasil, Tupi e, em 1936, a Nacional. Em São Paulo e no resto do país, outras estações também pulularam. Em pouco tempo, a orientação geral do rádio brasileiro era outra. Afastara-se anos-luz da que fora um dia sonhada por Roquette-Pinto. E a própria Rádio Sociedade teria de se espremer suas doses maciças de alta cultura para programar um pouco de “entretenimento”.

O ídolo Francisco Alves apresentava ao microfone da Rádio Sociedade um grande sucesso carnavalesco de Ismael Silva, Newton Bastos e dele próprio, o samba “Nem é bom falar”. A certa altura da letra, Chico Alves cantou: “Tu falas muito, meu bem, e precisas deixar / Tu falas muito, meu bem, e precisas deixar / Senão eu acabo dando pra gritar na rua / Eu quero uma mulher bem nua!”.

Em seu novo apartamento na Avenida Beira-Mar, Roquette-Pinto escutava a transmissão. Ao ouvir Francisco Alves cantar pelo microfone que “queria uma mulher bem nua” quase teve uma coisa. Ligou no ato para a emissora, chamou urgente um encarregado e mandou-o tirar a rádio do ar. Em seguida mandou chamar o próprio Francisco Alves e passou-lhe uma espinafração:

“Seu Chico, o senhor quer uma mulher bem nua. Eu também quero uma mulher bem nua. Só que o rádio não é lugar para querer isso!”

Mas não adiantava. O decreto-lei 21.111, de 1/3/1932, assinado pelo presidente Getúlio Vargas, autorizara a veiculação de propaganda comercial pelas rádios. Com isso, como numa avalanche, surgiram os patrocinadores, os cachês artísticos, os programas de auditório, os humorísticos, as transmissões esportivas, os anúncios e os jingles ao vivo. Os aparelhos baratearam e o rádio tornara-se, finalmente, acessível a todo mundo. E, de uma hora para outra, tornara-se também o principal fator de divulgação da música popular. Os grandes cartazes (como eram chamados os cantores e compositores mais famosos) passaram a ser disputados pelas emissoras: Carmen Miranda, Sylvio Caldas, Mário Reis, Almirante, Ary Barroso, Lamartine Babo, Orlando Silva e, claro, Francisco Alves. Para ter esses nomes em seu cast, as rádios investiam em equipamento e novos programas, pagavam-lhe fortunas e brigavam como cães adultos pela preferência do público.

Roquette-Pinto não entrava nessa briga. Para ele, o rádio deveria continuar educativo – pelo menos a sua rádio. Até fizera algumas concessões, com a de acolher em seus quadros o já famoso “Programa Casé”, de Ademar Casé – um berço de talentos com Noel Rosa, Haroldo Barbosa, Paulo Roberto, Nássara, Evaldo Rui, Sadi Cabral. Tudo corria bem e ele gostava de música popular, mas, assim que se descuidou, Francisco Alves pediu mulheres nuas pelo microfone.

Nadando contra a corrente, Roquette continuava a não admitir propaganda comercial ou política em sua emissora – o que a condenava a um gueto no dial. Mantida, como sempre, apenas pelos “sócios”, a Rádio Sociedade não tinha dinheiro para modernizar o equipamento e ampliar a potência a fim de enfrentar a concorrência. As óperas completas que transmitia (e que atraíram milhares de jovens brasileiros para o canto lírico) estavam sendo sufocadas em volume por “O Teu Cabelo Não Nega”. Roquette desejava apenas que houvesse espaço para todo mundo. Mas, agora, o ideal do rádio educativo no Brasil estava em perigo.

Em 1933, convenceu seu amigo, o educador Anísio Teixeira, secretário da Educação, a fundar uma rádio-escola a ser mantida pela prefeitura do Rio, para servir de exemplo a outras no futuro. Anísio topou, Roquette emprestou-lhe equipamento e funcionários da Rádio Sociedade e, com isso, a Rádio Escola Municipal, PRD-5, foi para o ar no ano seguinte. Em troca, Anísio pediu que ele fosse o seu primeiro diretor. Roquette aceitou. Talvez a nova estação do Largo da Carioca (rebatizada em 1945 como Rádio Roquette-Pinto) pudesse escapar ao comercialismo que parecia engolir todas as outras, inclusive a sua.

Para evitar a morte ou a desfiguração da Rádio Sociedade, Roquette só enxergava uma solução: reverter seus canais a um órgão oficial – o Ministério da Educação e Saúde.

A Doação da Rádio Sociedade

Em julho de 1936, quando resolveu se desfazer de sua rádio, Roquette-Pinto chamou seus filhos Paulo, de 27 anos, e Beatriz, de 25, à Rua da Carioca. Informou-lhes que, aos 52 anos, era um homem pobre e que a única herança que poderia deixar-lhes era a rádio, para que a dirigissem como uma rádio comercial. Só o prefixo, já então PRA-2, valia uma fortuna. “Mas não quero que ela se transforme numa rádio comercial”, acrescentou.

A seu ver, ninguém – nem ele, nem seus filhos – poderia salvá-la desse destino. Somente um órgão oficial teria meios para isso.

Beatriz entendeu o que seu pai queria dizer. E nem esperou pela opinião do irmão. Antecipou-se e perguntou:

”É esse o seu ideal, papai?”
”É”, respondeu Roquette.
”É tão raro um homem realizar seu ideal, meu Deus. Dá a rádio, papai. Nem se discute”.

Roquette então perguntou por carta a Gustavo Capanema, ministro da Educação e Saúde, se o ministério se interessaria pela rádio com tudo o que havia dentro: instalações, equipamento, biblioteca, laboratório de ensaios científicos, discoteca, instrumentos musicais, partituras, arquivo, móveis e utensílios, além, é óbvio, da estação transmissora em perfeito estado de funcionamento, com seus canais de ondas médias e curtas, e um quadro completo de locutores e técnicos com 13 anos de experiência. Tudo isto sem dívidas ou ônus de espécie alguma para a União e até com dinheiro em caixa. Única e irrevogável condição: a de que a rádio permanecesse fiel ao seu lema cultural e educativo, sem qualquer vinculação comercial, política ou religiosa.

Capanema respondeu que o presidente Getúlio Vargas aceitava e agradecia, mas sugeria que a reversão fosse feita através do Departamento de Propaganda e Difusão Cultural. Ao ler isso, um alarme tocou na cabeça de Roquette. Ele pareceu adivinhar que, em menos de um ano, o tal departamento se tornaria o infame Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do Estado Novo. Ora, ninguém o estava obrigando a desfazer-se de sua rádio. Sem hesitar, mandou outra carta a Capanema enfatizando que a reversão seria feita “ao Ministério de Educação do povo, não ao governo”. E só então Capanema entendeu e encerrou a correspondência, garantindo que o ministério a aceitava sem discussões, nos termos em que fora proposta.

Essas cartas foram os anticorpos que, no futuro, garantiriam a integridade da rádio contra os vários órgãos que tentariam apossar-se delas.

A reversão foi sacramentada no dia 7 de setembro de 1936. Na cerimônia oficial, realizada no terceiro andar do prédio da Rua da Carioca, Capanema fez-se acompanhar por seu chefe de gabinete, Carlos Drummond de Andrade. Vinte e cinco anos depois, Drummond recordaria numa crônica que a cerimônia “tinha qualquer coisa de casamento no seio de uma família muita unida, que via a filha sair nos braços do rapaz escolhido livremente; sim, um excelente rapaz, tudo estava ótimo, os dois seriam muito felizes – mas... quem sabe?”

A imagem lhe ocorrera porque Roquette passara os canais a Capanema com a frase:
”Entrego esta rádio com a mesma emoção com que se casa uma filha”.

Roquette saiu dali com Beatriz para um pequeno corredor nos fundos do andar e chorou de antecipada saudade. Com os olhos também molhados, Beatriz voltou para ajudar Drummond a colar os selos do ministério nos móveis e objetos da rádio.

Naquele dia, há exatamente 60 anos, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro deixava de existir, para que nascesse a Rádio Ministério da Educação.

Roquette e o Início da Televisão

Em 1924, Roquette candidatara-se à Academia Brasileira de Letras na vaga do poeta Vicente de Carvalho, mas fora derrotado. Em 1927, foi eleito na vaga de Osório Duque Estrada. Usou o fardão na noite da posse – e nunca mais. Um ano antes, tornara-se diretor do Museu Nacional. Bem ao seu estilo, em todo o tempo em que partejou o rádio no Brasil e esteve à frente da emissora, Roquette nunca interrompeu seu trabalho científico: naquele período, publicou dezenas de palestras e monografias sobre antropologia, medicina, história e lingüística. Entre uma e outra, traduzia Goethe. Um jornalista francês escreveu-lhe perguntando se tinha uma divisa. Roquette respondeu: "Crer e agir”. E explicou que nunca agira sem crer e que, depois de crer, nunca deixara de agir.

Agir, para ele, era uma segunda natureza. Em 1933, como um menino curioso que – em vez de destruir um brinquedo para saber como funciona – constrói esse brinquedo para vê-lo funcionar, Roquette montara uma televisão primitiva, à base de processos mecânicos usando o disco de Kipkov. Com isso, simplesmente realizou a primeira transmissão de imagens no Brasil. Instalou a emissão na sede da rádio na Rua da Carioca, um receptor na casa de seu amigo Flávio de Andrade na rua Cândido Mendes, em Santa Teresa, e fez uma única transmissão. As imagens mostravam cartazes com as letras A, B e I, formando a sigla da Associação Brasileira de Imprensa. No futuro, o cronista Antônio Maria destacaria o fato de que, graças a Roquette, as primeiras imagens de TV mostradas no Brasil não foram as de um anúncio comercial ou um retrato do presidente da República, mas o nome da entidade dos jornalistas.

Mas Roquette sabia que ainda era cedo para a televisão. Até lá, havia muita coisa a ser feita, como salvar a rádio ou, se não conseguisse, passá-la para um órgão público – o que acabou acontecendo. Depois de doá-la ao ministério da Educação, Roquette ainda a dirigiu por boa parte de 1937 antes de entregá-la a seu sucessor Fernando Tude de Souza. Só que, antes disso, no próprio ano de 1936, ele já se envolvera com a que seria a última paixão de sua vida: o cinema.

Roquette e o Cinema Educativo

Um vendedor de eletrodomésticos fora procurá-lo no Museu Nacional tentando empurrar-lhe alguns para o museu. Chamava-se Humberto Mauro, tinha 39 anos e era famoso porque, mesmo morando na pequena Cataguazes (MG), fizera filmes que se tornariam clássicos do cinema brasileiro, como Tesouro Perdido (1927) e Brasa Dormida (1928). Mudara-se para o Rio em 1930 para trabalhar na Cinédia, fizera Ganga bruta (1933) e acabara de rodar Cidade-mulher, com música de Noel Rosa e Assis Valente. Era um gênio intuitivo, mas, nas horas vagas, tinha de virar-se vendendo enceradeiras e aspiradores de pó. Roquette não lhe comprou nenhum - mas comprou o próprio Humberto Mauro com a proposta: “Você vai trabalhar comigo. Vamos fazer o cinema educativo no Brasil!”

O Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE) foi fundado por Roquette naquele mesmo 1936. A partir de O Descobrimento do Brasil (com música de Villa-Lobos), permitiria a Humberto Mauro rodar, nos anos seguintes, cerca de 300 documentários em curta-metragem, de caráter científico, histórico e da poética popular. Quase todos sob orientação de Roquette, que também escreveu e narrou muitos deles. No INCE, eles formaram toda uma geração de técnicos até 1947, quando Roquette aos 63 anos, afastou-se da presidência e deixou Mauro em seu lugar.

O INCE funcionava num prédio da Praça da República, dois andares acima das novas instalações da Rádio Ministério da Educação. Donde, até sem querer, a menina-dos-olhos de Roquette-Pinto continuava sob o seu olhar vigilante e satisfeito. No decorrer dos anos ele apreciou o progresso da sua criação. Suas idéias originais – “maluquices líricas”, como as chamava Drummond – foram conservadas, desenvolvidas e com os recursos técnicos e financeiros dados pelo governo, até ampliadas.

Os Últimos Anos de Roquette

Roquette maravilhava-se ao ver que a rádio podia manter várias orquestras como a sinfônica, de câmara, de sopros e afro-brasileira; um quarteto vocal e outro de cordas; um conjunto de música antiga; um coral, um trio, vários duos e um fabuloso quadro de solistas. Os maestros responsáveis por eles chamavam-se Eleazar de Carvalho (regente do programa “Música para a juventude”, que ficaria décadas no ar), Alceo Bocchino, Radamés Gnatalli, Guerra Peixe, Francisco Mignone, Iberê Gomes Grosso, Abigail Moura e muitos outros - a nata musical do Brasil. Roquette acompanhava também os concursos de orfeões promovidos pela rádio, somando às vezes mais de 700 vozes. Tudo aquilo nascera de seu pioneirismo.

Roquette gostava também de ver os programas educativos em forma de radioteatro e vibrava com os programas sobre literatura, poesia, teatro, cinema, folclore e jazz. Mas, provavelmente, seu grande orgulho era saber que as aulas do “Colégio do ar”, transmitidas diariamente em dois turnos durante o ano letivo, contavam com milhares de alunos matriculados. Era o sonho feito realidade: o rádio como professor.

Em seus últimos anos, a imagem de Roquette-Pinto, já enorme, cresceu às dimensões de uma lenda. E os que seguiam à distância as suas realizações nem imaginavam que, desde pelo menos 1935, qualquer movimento físico lhe provocava dores quase intoleráveis. Roquette passara a sofrer de espondilose – um processo degenerativo da espinha vertebral que o foi deformando aos poucos, curvando-o para frente e impedindo-o até de virar o pescoço sem virar também o tronco. Era cruel que isso lhe acontecesse – logo a ele, que sempre convivera tão harmoniosamente com sua saúde, seu corpo e sua beleza.

Para combater a dor, Roquette habituara-se à aspirina, que tomava, não de uma em uma, mas às colheradas, várias vezes ao dia. Mas nada disso impediria que continuasse ativo até o fim. Às vezes, até desnecessariamente.

A Universidade do Brasil ia homenageá-lo com o título de professor honorário, a mais alta láurea universitária. Com quase 70 anos, Roquette subiu pela escada e chegou cansado ao andar onde se daria a cerimônia. Seu amigo, o cientista Carlos Chagas, perguntou-lhe por que não usara o elevador. “Sou um homem disciplinado”. Respondeu Roquette. “O contínuo lá embaixo me disse que usasse a escada”.

Roquette sofreu um derrame fatal no dia 18 de outubro de 1954, em seu apartamento na Avenida Beira-Mar, enquanto escrevia um artigo para o Jornal do Brasil. O apartamento em que insistia em viver sozinho, com os poucos aposentos, inclusive o banheiro, entulhados de engenhocas mecânicas que inventava para se divertir. Nem todas iriam funcionar e ele sabia disso. Mas suas principais criações – Rondônia e a Rádio Ministério da Educação e Cultura – estavam mais vivas do que nunca.

E ele também sabia.

Setembro de 1996

PESQUISADO E POSTADO, PELO PROF. FÁBIO MOTTA (ÁRBITRO DE XADREZ).
REFERÊNCIA:
http://www.radiomec.com.br/70anos/70anos_rqpinto.asp

291ª HOMENAGEM: LUCAS ASSIS DE SANTOS.

HOMENAGEM AO ENXADRISTA LUCAS ASSIS DE SANTOS.
ADOLESCENTE PRESTATIVO, QUE ENSINOU-ME A INSTALAR A CXSAJBA - RÁDIO, NESTE BLOG.
MUITO EDUCADO, COMUNICATIVO.
APRENDEU A JOGAR XADREZ AOS ONZE ANOS, NO COLÉGIO SANTO ANTÔNIO DE JESUS, NO ANO 2008.IMPORTANTE NA VIDA É FAZER O BEM.
PARABÉNS!
PROF. FÁBIO MOTTA (ÁRBITRO DE XADREZ).

sexta-feira, 2 de julho de 2010

290ª HOMENAGEM: MÚSICA POPULAR BRASILEIRA.


OS DISCOS DE VINIL ERAM TOCADOS NUM APARELHO, QUE RECEBIA VÁRIOS NOMES: TOCA-DISCOS, VITROLA, RADIOLA...

HOMENAGEM À MÚSICA POPULAR BRASILEIRA.
COMPOSITORES; CANTORES; MÚSICOS; GRAVADORAS; PÚBLICO NACIONAL; PÚBLICO INTERNACIONAL; TODOS QUE CONTRIBUÍRAM PARA A DIVULGAÇÃO E EVOLUÇÃO, DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA, NOS VARIADOS RITMOS E ESTILOS.
PARABÉNS!
PROF. FÁBIO MOTTA (ÁRBITRO DE XADREZ).
REFERÊNCIA:
http://images02.olx.com.br/ui/1/33/55/1072855_1.gif